Tuesday, December 19, 2006

extrato que comprova como eu era muito mais dramático aos 19 anos (ou como se desculpar sem se trair).

um caco de mim corta carne
em pedaços, em trilhas, em descaminhos
uns cacos de mim cortando
talvez
espelham-se entre si e a si mesmos
mesmamente falando das coisas
me percorro falsamente
desvanece pois o momento outro
de possibilidade sem probabilidades, pois
já aconteceram coisas independentes
da frieza ou da histeria do olhar

sinto, sem apalpar
apalpar seria não voar pelos
(do corpo)

domínios
sem sombra de enternecimento
entre uns e outros
sacodem-se toldando
sofrendo, reconhecendo um corpo
corpo de quem?
dentre muitos impossíveis e existentes
fatídicos cem diálogos
entre mundos

cada movimento do olho
pisca lá e vê o escuro
sem-fundo
jogando ao infinito diversos interesses
retas paralelas encontram-se no infinito
vidas paralelas acontecem
num piscar de pálpebras
entre azuis e verdes olhos
entre o azul cobertura do céu
e o verde longínquo da terra
tudo é possível
incerteza abismal
castração do movimento que une desejos e realidades
castração da transa cósmica
frustração da partida entre dois partidos
irreconhecíveis se de outro modo

criação do ponto de fuga
os olhos piscando e acelerando a dor
da cessação do movimento uno e orgânico
nasce o imaginário
da dor e da alegria
devedor?

o sangue não mais invade os fragmentos
criando unidade e a noção do corpo
ele foi jorrado
alimenta a prosa da vida
os ódios e amores
a distância (efeito das palavras) persegue o esquecimento

do momento da linguagem que divaga
inserindo a dor
do momento da linguagem que sem dilação
na roda esmagadora do mundo
esquece e relembra
para sobreviver aos caos
da despedida

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