Sunday, December 17, 2006

Poder, cultura e violência

No entendimento de Gregory Bateson (1987), o primeiro momento da descrição das relações humanas para a antropologia parte do reconhecimento da força estruturante do fenômeno da mútua percepção entre pessoas, situado em uma diversidade de éticas e epistemologias locais com as quais os antropólogos sociais e culturais procuram se comunicar para basear uma relação de conhecimento situado, ou seja, sem postular um sistema substantivo de avaliação e conhecimento como sendo um sistema de referências universal para os regimes das trocas humanas. As diferenças não são coisas, não podem ser localizadas como um campo de objetos, uma diferença é uma relação, uma perspectiva (cf. Bateson, 1972). Se as relações de produção e de trocas de signos são uma das rochas humanas sobre as quais são edificados os espaços sociais, não se pode esquecer de que precisamos sempre em situações práticas comprar a paz com os regimes de troca diferentes dos nossos, seja de humanos ou de deuses. A construção da “parceria social” se faz contra as recusas de dar e receber, ou seja, contra a guerra, contra a violência e contra a redução das relações a uma dimensão instrumental (cf. Mauss, 1966). Todavia, as relações de parcerias não são dadas, são fabricadas nos intervalos temporais onde o que se ofereceu e o que se poderá retribuir formam um campo de incertezas, de tensões, de ambigüidades, de rivalidades, de frustrações e, principalmente, de desconhecimento dos princípios do regime das trocas em que pretendentes a parceiros são constituídos em disposições para trocas ou para a guerra (cf. Bourdieu, 1996). Neste sentido, forma-se um campo de ações sobre ações como um campo de respostas, reações, efeitos e invenções possíveis, onde um dos elementos de sua articulação é expressa pela exigência de que o “outro” da relação seja efetivamente reconhecido. Os usos da violência e os atos de consentimento fazem parte deste campo como instrumentos e efeitos, todavia não podem ser pensados como princípios ou natureza em que se funda o campo. O exercício do poder no campo mútuo das ações sobre ações pode suscitar subserviências múltiplas e também mortos e feridos, mas nem sua violência, nem suas legitimações podem apontar a especificidade do campo de poder. O exercício de um poder não é apenas uma relação entre parceiros individuais e coletivos, trata-se de “um conjunto de ações sobre ações possíveis: opera sobre o campo da possibilidade, aonde vem se inscrever o comportamento dos sujeitos de ação: incita , induz, desvia, facilita e torna mais difícil, alarga ou limita, torna mais ou menos provável; e no limite, coage ou impede de modo absoluto; mas permanece sendo sempre uma maneira de agir sobre um ou mais sujeitos de ações, e o é como tal pois estes agem ou estão propensos a agir. Uma ação sobre ações” (Foucault, 1984, p.313).

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