Saturday, January 23, 2021
A matriz comum na pandemia
Tenho observado no cotidiano da pandemia alguns pontos interessantes para a reflexão sociológica. Indivíduos não bolsonaristas pró-ciência podem fazer discursos sobre protocolos recomendados por cientistas sem que na prática efetiva sigam tais protocolos. Indivíduos bolsonaristas anticiência fazem discursos sobre a hipocrisia dos não bolsonaristas e apontam essa incongruência entre faça o que eu digo mas não faço o que eu faço. Isso é fundamental para o caráter de profecia autorrealizável do bolsonarismo, eles provam para si mesmos que estão certos, cercados de hipócritas. Essa atitude bolsonarista é disruptiva e bastante radical, se assemelha a outras formas de fundamentalismo religioso ou político. Alguns bolsonaristas que são exímios ativistas da desinformação, os que atuam estrategicamente no que estão fazendo, não são meros replicadores, adotam na prática certas soluções pró-ciência e escondem isso do seu perfil público, o caso dos médicos bolsonaristas, por exemplo. No convívio do dia a dia, em termos de práticas de cuidado, parece não haver um divisor muito grande entre o médico bolsonarista e o não bolsonarista, a oposição é mais ideológica. Há médicos anti-bolsonaristas que receitaram tratamento precoce para familiares e amigos, por exemplo, ou que na prática não usam máscara no dia a dia, no convívio social. E há médicos bolsonaristas que seguem padrões bem científicos quando estão cuidando de seus familiares e amigos. As pessoas em geral frequentemente condenam as outras, de um lado ou de outro, mas há práticas em comum, é dessa matriz de práticas em comum que o bolsonarismo se torna difuso e vai sobreviver mesmo que o bolsonarismo como fenômeno político se acabe. Afinal, o proto-bolsonarismo já existia antes do bolsonarismo. O fosso entre aquilo que se diz em público, aquilo que se diz privadamente, aquilo que se faz em público, aquilo que se faz privadamente, enfim, essas incongruências continuam fazendo parte do funcionamento das relações sociais como fato corriqueiro. As mudanças estão mais ligadas aos ímpetos de denunciar o outro como fonte de incongruência, escondendo dos outros e por vezes de si mesmo que se é, como indivíduo, parte dessa fonte humana de incongruência. Espero não ter escrito muitas incongruências nesta postagem.
Falando de mim mesmo
Quando falamos de um músico, de um dançarino, de um jogador de futebol, de um lutador, de um pedreiro, de um escultor, de um marceneiro, de um boleiro, enfim, de quaisquer atividades de conhecimento humano, cujos indivíduos que as desempenham são por nós admirados pela destreza, pela atenção, cuidado, pela dedicação a fazer bem feito, pelo tempo longo e permanente de treino, de formação, de aquisição de habilidades de artífice, que busca fazer o melhor que pode, tudo isso que admiramos muito, e que, em alguns casos, como os atletas das diversas modalidades esportivas, envolve treinamento de alto impacto, quando falamos no dia a dia desses indivíduos e suas performances, falamos com admiração. Por que, então, nas ciências humanas e sociais, falar de atividade de formação, de treinamento complexo para pesquisa, de alto impacto, de dedicação, de disciplina, ou seja, de tudo aquilo que outras atividades também realizam, é tido por muitos como uma excrescência, um traço de uma dominação espúria a ser negada, a ser boicotada? Por que ninguém fala isso de um jogador de futebol que passa o dia treinando sem parar para ser um atleta? Sobre este último, há elogios que sobram, justamente por fazer tudo aquilo que é preciso fazer para se tornar uma pesquisadora ou um pesquisador. Por que apenas na universidade não se pode treinar muito para se obter alto desempenho? Desconfio que isso ocorre por causa da divisão corpo-mente que é a base da matriz da colonialidade dos corpos. Mas isso me deixa perplexo. Um jovem de periferia das classes populares que na universidade se destaca pela dedicação ao treino é estigmatizado por parte de colegas, como adaptado ao regime da branquitude, mas quando é jogador de futebol quase ninguém questiona o corpo negro sendo submetido pela branquitude futebolística. Uma vez um militante universitário me falou que não ia ler textos para discutir, pois fazia parte de outro povo, de um povo que conhecia com o corpo, dançando, ele se referia ao povo negro, eu tive vontade de chorar quando escutei isso, que um corpo negro não poderia ler textos e discutir textos, mas apenas dançar, pois o jovem colocou claramente como essa separação entre livros da branquitude e corpo dançante da negritude. Talvez por ser jovem, mas há homens mais velhos por trás, alimentando essa polarização, a esses mais velhos, não perdoo. Corpos negros podem sim ser cientistas, acadêmicos e de alto nível, podem sim ler livros e escrever livros, é assim que penso. Mas me dizem que esse pensamento é de um branco liberal paternalista salvacionista que não enxerga o racismo estrutural. O que posso fazer como branco nesse contexto? Isso tem ocupado parte considerável das minhas reflexões, depois que um estudante negro recusou bolsa de iniciação científica por ser coisa da branquitude e depois eu o encontrei trabalhando de garçom num restaurante do entorno do campus, ganhando um pouco mais do que o valor da bolsa. Não é um problema individual de A ou B, é um problema que precisa ser discutido, mas não vai ser a branquitude crítica que vai liderar isso. Por enquanto, só lamento e espero e espero e espero que o debate aconteça. Identificar fazer atividade científica com coisa de branco, ler livros como coisa de branco, estudar como coisa de branco, um fundamentalismo essencialista que está se tornando uma loucura, tanto é que as pessoas estão adoecendo e abandonando a universidade, justamente os que viraram portadores da denúncia dos privilégios da branquitude. Isso tudo é um assunto tabu, eu não deveria nem estar escrevendo sobre isso, pois gera muita confusão. As melhores cientistas sociais do mundo hoje são mulheres e negras feministas. Altamente estudiosas e dedicadas. Por que elas não são a referência?
Monday, December 21, 2020
Lembrança do futuro
Em 1998, viajei pela primeira vez ao exterior. Fui a trabalho passar três meses. Era estudante de mestrado. Conheci então parte da Europa no auge do neoliberalismo, uma crise sem precedentes de desmontagem do estado de bem-estar social. Fiquei hospedado na casa de dois amigos (um casal) por intermédio de outro amigo (um europeu que mora no Brasil). Foi então que conheci a pobreza europeia. Uma pobreza profunda. Meus anfitriões estavam ambos desempregados (dois doutores). Um vendia flores nas praças para turistas e dava aulas particulares de química, mesmo sendo parte de uma equipe prêmio Nobel de química (o orientador). Outro dirigia taxi de modo clandestino na madrugada, pegando o taxi de um outro que não queria trabalhar de madrugada. Um doutor em ciência política poliglota. Os dois passavam fome. Comiam repolho cozido o dia todo e bebiam uns vinhos ruins baratos de garrafão de plástico. Não havia calefação no quarto velho, caindo aos pedaços, numa favela na capital da Europa. Foram 3 meses dormindo sem calefação com menos 10, menos 5. Nos dias mais frios, meus anfitriões colocavam uma lamparina numa botijão de gás, como se faz nas áreas mais pobres do Nordeste do Brasil. Um perigo, podia gerar incêndio e matar todo mundo no cortiço. A comida que comiam era de baixa qualidade, carne vermelha era um item fora da imaginação. Quando iam receber o salário desemprego, ficavam numa fila e os concidadãos passavam xingando e alguns cuspiam neles, chamando-os de vagabundos e inúteis, que deveriam morrer. Sofriam ataques racistas por serem um casal interracial e interétnico. Ataques de vários lados. Nunca vou esquecer isso. Conheci o futuro em 1998. Foi muito marcante, eu não sabia que havia favela, pobreza e que as pessoas passavam fome na Europa.
Saturday, September 21, 2019
O paternalismo em questão
Por que pessoas que deram um duro danado, que tiveram que ralar muito, superar muitos obstáculos, estudar e trabalhar, enfim, pessoas que apresentaram muita garra e determinação ao longo da vida, por vezes, tendem a considerar injusto que outras pessoas sejam cobradas na mesma chave, protegendo de modo paternalista que os mais jovens sejam postos à prova como elas próprias o foram? Por que os dois pesos e as duas medidas? A gente sabe que para quem não nasceu com muitos recursos e oportunidades, a ralação proletária é a condição. Por que há um preconceito com a ralação proletária? Afinal, é a luta do trabalho vivo contra o trabalho morto, não?
Friday, August 30, 2019
discordâncias em divergências
Saber transformar discordâncias em divergências é fundamental para corpos em aliança lateral, lado a lado. Não é uma exercício fácil. Divergir é levar a sério as objeções dos outros. No campo das ciências, essa atitude é um requisito para a construção de uma nova objetividade. O diálogo é um vínculo. Quebrar com o diálogo é romper o vínculo. As consequências podem ser mais ou menos graves. Os opostos nem sempre são contraditórios. Mediações entre os opostos, que não sejam feitas em nome do terceiro que está acima da conflitualidade, em nome da autoridade, precisam levar em consideração a possibilidade permanente de que os termos, as relações e as próprias ideias em jogo sejam lidas como inerentemente problemáticas. Não há portador inquestionável dos conceitos adequados, pois a própria pergunta relevante é uma questão de problematização. O desejo de poder, quando coloniza a vontade de saber, se torna abusivo nos seus anseios de autovalidação.
Thursday, August 29, 2019
Incômodos
Tem uma coisa que está me incomodando. Tenho vários amigos ou conhecidos que foram pessoas que batalharam muito na vida para superar dificuldades relacionadas à pobreza e à falta de perspectiva. Pessoas que nasceram em ambientes muito hostis e improváveis. Ambientes de muita exclusão, opressão e massacre de sonhos. Aí, esses amigos e conhecidos conseguiram "vencer na vida". E sentem uma culpa enorme pelo fato de serem poucos, se relacionamos com o lugar de onde vieram. Se sentem culpados por terem dado certo em meio a uma multidão de amigos, colegas, vizinhos, familiares e tal que deram muito errado. O sobrevivente morre de culpa. Entende? Aí, esse sobrevivente culpado, que ralou para caralho, que teve de fazer coisas impossíveis, como estudar e trabalhar sem ter sido destinado para os lugares do estudo e do trabalho, começa, depois de estar na classe média, como consumidor competente, a dizer para os mais jovens rejeitarem esses caminhos e essas trilhas tortuosos que os levou a sair da merda a um custo muito elevado. Não entendo isso. Não concordo. Para dizer ao outro que rejeite a ascensão, é preciso não usufruir dela. Usufruir da ascensão e dizer para o outro que não vale a pena é meio sacana. Dizer para o outro que não estude, não rale, não se submeta a essa disciplina horrorosa, e depois ir tomar um bom trago e comer uma boa comida e dormir numa boa cama, devido ao fato de ter se submetido a essas exigências horrorosas que são estudar e trabalhar com afinco, etc. Me parece uma contradição. Aí, me dizem, mas esse teu argumento é liberal, aí eu digo, a tua vida é liberal, e vc goza nela, e diz que ninguém mais deve buscar gozá-la. Tem alguma coisa errada aí.
Tuesday, August 27, 2019
Coitado do Mignolo
Uma das formas da razão imperial ocidental atuar é classificando o pensamento em puro e impuro. Walter Mignolo reproduz a colonialidade dessa razão euroamericana branca, da qual ele é representante, ao chamar o pensamento pós-colonial de "mercado" e o decolonial de "ativismo ". Mignolo é um grande empreendedor branco do mercado decolonial. Walter Mignolo escreve um texto 100% com categorias gregas e latinas para propor uma desvinculação epistêmica dos fundamentos de catedorias gregas e latinas. O giro decolonial dele é epistemologia branca na veia. Sou branco, eu sei. Sei reconhecer outro branco no seu desejo de poder imperial, usando disfarces descoloniais como estratégia de reposicionamento no mercado de ideias. Ele diz querer romper com a moderna teoria política desde Maquiavel, mas escreve textos que são versões das práticas relatadas por essas teorias. Ele é um filhote de Maquiavel. O background da proposta de desobediência epistêmica do Mignolo é fortemente euroamericana no seu sonho e em sua fantasia. A pretensão dele em ter se desconectado do eurocentrismo é sem base real. Não é isso que o texto dele diz. Um texto de cultura euromericana no seu esplendor. Nem tudo o que reluz é ouro. A presença de epistemologias afros e ameríndias na escrita dele é nula. Ele é objetivamente branco na escrita dele. Mignolo usa categorias analíticas ocidentais como economia e reciprocidade para falar de universos não ocidentais. Comete etnocentrismo em seus textos. Mignolo passa o texto todo tentando validar a si mesmo como pensador descolonial. Fala de ferida colonial, mas "esquece" suas feridas narcísicas. Seu desejo em ser aceito pelo mestiço, pela mestiçagem, exista coisa mais branca do que isso? A descrição romântica que Mignolo faz de Hugo Chávez foi uma das piores análises que li sobre política contemporânea. Ele é ingênuo? Não, ele é eurocentrado, o Mignolo. É também capturado pelo discurso do estatismo. Ele identifica Chávez no poder com o giro decolonial. Que ridículo!
Tuesday, August 20, 2019
Um dificuldade
Alguns pensadores euroamericanos, defrontados por uma intensa competição de mercado no campo acadêmico, adotaram como estratégia de poder gerar um novo mercado de ideias. Começaram a se classificar como pensamento latino-americano. Ou seja, em alguns casos, como dos homens brancos ricos que falam várias línguas e trabalham em centros de poder global, universidades dos EUA, da França, da Alemanha, da Inglaterra, esses homens brancos hegemônicos passam a se nomear representantes do chamado giro decolonial. Pessoalmente, gosto muito desse giro, mas não vou esquecer que virou um think tank euroamericano. Bourdieu que me ensinou a ter esse desconfiômetro ligado. Atenção, estou me referindo apenas aos homens brancos. Não generalizo. E outro detalhe: América latina, latino-americano, foram ferramentas políticas da diplomacia francesa para fazer frente ao crescente imperialismo dos EUA nas Américas central e do sul. Pensamento latino-americano pode até ter sido ressignificado, mas é uma arma francesa numa luta imperial.
Paradoxos do alto e do baixo
Reflexão sobre poder no campo acadêmico. Vocês sabiam que pesquisadores que ocupam posições dominantes, de alto capital, nas áreas de física, medicina, direito, engenharia, estatística, nos procuram (nas ciências sociais), dizendo que admiram nossa capacidade de pesquisa e análise e que a gente sabe fazer muito bem o que eles não sabem. E que precisam de parcerias. Mas aí os que lá nessas áreas são dominados, de baixo capital, vivem nos esculhambando, dizendo que não temos rigor etc. Deu para entender?
O LUGAR DE FALA DE UM PROFESSOR BRANCO
Os estudantes de ciências sociais mais jovens, que estão cursando a graduação, lançaram-me desafios de pensamento e reflexão crítica nos últimos tempos que me tiraram da minha zona de conforto. Estou super empolgado com isso, estou escrevendo um texto com elas e eles sobre isso, e vou relatar para vocês algumas coisas provocadoras sobre isso. Na verdade, fiquei inicialmente super incomodado, aí transformei meu incômodo em empolgação, o que é uma atitude de branco que não aceita ficar fora de uma disputa pelo poder, o que eu mascaro com motivos pedagógicos para melhor passar. Mas eu juro que não queria que fosse assim. É um imbróglio. E também uma ironia. O lugar de fala do branco é o racismo. Mesmo quando se faz algum esforço para ser antirracista, não há como escapar dessa questão. Vejam o tamanho do abacaxi. Eu sou branco, meus pais são brancos, meus avós maternos e paternos, meus bisavós maternos e paternos também. Não me acho mestiço, não reivindico que tenha alguém na minha família que me faça ser miscigenado. Minha esposa é branca e meus dois filhos são brancos. Os discursos do racismo estão incrustados nessa minha longa experiência de pertencimento familiar. Como brasileiro, me sinto herdeiro da tradição cultural euroamericana, ocidental. Me identifico mais com a Europa do que com a América Latina (esse produto do pensamento europeu). Minha biblioteca é quase toda ocidental, 90% certamente. Ademais, venho dessa classe média assalariada, não proprietária, sem posses, mas que investe tudo em saúde, educação e cultura para empoderar os filhos a fim de que possam ser competitivos em carreiras que exigem nível superior e pós-graduação. Minhas duas irmãs são brancas e possuem pós-graduação como eu. Meu pai e minha mãe possuem nível superior, estudaram na UFC, na mesma instituição onde sou professor. Ou seja, tudo na minha trajetória conspira para que eu tivesse me tornado um demônio louro. Mas será que eu não sou? Não sei. Em parte sim, em parte não. Mas certamente não sou um ideólogo do racismo, já que assumo com baixo sucesso social e política retóricas antirracistas. Na minha primeira juventude, minha militância era junto com amigos do movimento negro. Com eles e elas, aprendi muitas coisas interessantes. Hoje, esses meus amigos negros são velhos ou quase velhos como eu. São professores também. E estão também se sentindo interpelado pelos novos tempos e discussões. Mas como são negros e eu branco, a gente vivencia assim de modo bem diferente. Eles estimulam a ruptura com a hegemonia euroamericana no ensino e eu tenho minha prática pedagógica toda centrada no estudo sistemático dessa hegemonia, mesmo que usando autores euroamericanos contra-hegemônicos, como Foucault. Como tenho um acesso privilegiado ao pensamento de brancos euroamericanos, minha principal contribuição seria em torno de tais autores, da recepção crítica de tais autores, mas ao fazer isso, estou validando quer queira ou não a própria hegemonia desse pensamento. Pode o professor branco dominante, colonizador, falar sobre temas decoloniais? Meu principal alvo de críticas tem sido os brancos na tentativa de se apropriar da reflexão decolonial. Talvez seja a única maneira de eu contribuir para o debate, desconstruindo a pretensão do professor branco de ser portador do lugar de fala do subalterno, incluindo aí os professores de pele negra e máscaras brancas. Quem está na fogueira é para se queimar. Vou escrever um ensaio sobre isso para explicitar essas questões. Vou fazer umas postagens aqui que serão o início do ensaio, como esta que agora publico.
Thursday, August 08, 2019
PRIMEIRO DIA LETIVO DE 2019.2 - AUTOAJUDA
O grande desafio do momento no ambiente de trabalho é não se deixar contagiar pelas transferências de ansiedade e angústia, que são muitas, especialmente nesse momento do país. Tentar começar com boa respiração, sem taquicardia, com boa alimentação, leituras, estudos, caminhadas, concentrado, buscando fazer o melhor, sabendo distinguir as atividades mais essenciais das menos ou não essenciais. Buscar fazer o melhor possível, intensidade na qualidade das construções humanas de saber e conhecimento. Com respeito mútuo, ajuda mútua e solidariedade. Enfim, muito trabalho, mas sem adoecer desde o início, pois já há muitas pessoas começando o semestre já adoecidas, infelizmente.
Uma reflexão de início de semestre letivo
Se os consumidores de serviços educacionais, como clientes da empresa, escolhessem por maioria que se estudasse Olavo de Carvalho em vez de Weber na disciplina de Sociologia compreensiva, o democrático seria acatar a escolha que expressa o desejo da maioria? Acordei pensando nisso. Certa vez, na disciplina de sociologia clássica, um pequeno grupo de estudantes demandou que eu retirasse o Marx do plano de ensino, disseram que não o consideravam um autor digno de estar no plano. Outra vez, na disciplina de sociologia contemporânea, um pequeno outro grupo solicitou que eu retirasse Norbert Elias do plano de ensino e colocasse um sociólogo marxista no lugar dele. Fiz as devidas problematizações sobre como essas demandas não faziam sentido e segui com o plano de ensino incluindo Marx e Elias. Mas caso os consumidores de serviços educacionais fossem maiorias, tivessem decidido por maioria que Marx e Elias deveriam sair, por razões diametralmente opostas? Se eu não acatasse a decisão e insistisse em manter Marx para o desagradado dos liberais e Elias para o desagrado dos marxistas, minha decisão seria legítima? Seria democrática?
Tuesday, June 11, 2019
Botar banca
145 bancas depois (mono, dissertação, tese, qualificação)...Adoro participar de bancas. Bourdieu dizia que era uma maneira de se tornar um orientador melhor, pois pela prática da banca se amplia a capacidade de imaginar modos possíveis de construção de objetos de pesquisa. Não boto banca para botar uma banca para frente. É um trabalho meio invisível da gente, tão importante e tão invisibilizado. Sigamos.
Monday, May 20, 2019
Com sangue no olho
O ódio há de vencer. Não o ódio ao outro, mas ao existente que massacra o direito a existir dos outros. Lutar contra o amor ao existente é a tarefa por excelência. Nada de alegrias, afetos e gratidões adaptativas ao existente. Nada de beijos e abraços ao existente. Ser contra o existente com todas as forças. Destruir aquilo que é. Bom domingo aos amigos que ainda sabem rir do existente, deslocando-se em direção ao nada, ao mais profundo abismo, onde se salta para cair para o alto. Sem abraços, afetos, nem gratidão, apenas com sangue no olho.
Saturday, May 18, 2019
Apenas seguir adiante...
Não há sujeitos, não laços aqui, apenas um seguir adiante. Sem buscas, sem saber. Nada a compreender, nada a sentir, nada a mudar. Apenas seguir. Uma tagarelice função do silêncio faz seguir, apenas seguir. Nada olhar, nada ler. O que o mestre quer ouvir? A cada resposta, sua interpelação retorna, indiferente. Por que simplesmente não nos calamos no sofrimento estável? Por que abrir mais uma vez o sofrimento que se sofre desde sempre sem esperança? Por que não permanecer no silêncio, na função, no estabelecido, no separado? Desejar ser julgado para se tornar uma pessoa séria, é isso? Afinal, devemos usar nossa energia para nos salvar ou nos condenar? Que desperdício, essa tagarelice sem fim, que nada gera de útil para a comunidade. Sinto vergonha. Uma vergonha de não poder ser, de não poder continuar sendo. O atraso, o erro, o fracasso, minha mania. Estúpida mania. Vou ser útil, prometo. Mas não posso. Não consigo. Terminei meu parecer. Vou iniciar a outra tarefa. Mas é a ordem do mestre, diz para continuar, continuem, falem de si como se fosse um "sou eu quem fala", com a fala deles atravessada na garganta, qual espinha de peixe, distinguindo qual voz, qual timbre, no tosse-tosse, qual corpo merece ser sentido como merecido, acolhido, iluminado no direito a existir.
O problema do rosto humano
O que pode um rosto? E onde não há rosto? O rosto inexpressivo é ainda um rosto? O simiesco do rosto é apenas um traço? O que se traça no rosto? O rosto é especular? Além de buracos, o que há no rosto? Um rosto existe na solidão? Para que serve um rosto? O rosto seria além de um esgar? As rugas de um rosto são suas fateixas? Por que se escolhe o rosto para cuspir? São muitos os rostos dos outros no próprio rosto? Há um rosto próprio e singular? Os olhos cansados de um rosto podem ainda enganar? O sorriso de um rosto é independente de sua dor? Há rosto que não seja uma deformação do rosto? Há algum sujeito no rosto? Haveria outro rosto no lado detrás do rosto? Um rosto funciona como uma costura?
Não buscar o sentido e explodir a significação
Herdeiros da mais brutal vulgaridade, tentamos deslocar para além a energia boçal de nossa ignorância, mas ela não despega de nós, somos o que somos, pois não somos onde acreditávamos estar. Filhos das armas, da guerra, da maldade, da perversidade, cavávamos numa peleja sem fim para expurgar de nós o que havia de chulo, estúpido, contudo, a estultície não sai de nós, mesmo quando somos beletristas. Estou falando dos homens, dos homens de merda que não nos deixam esquecer que somos parte de uma experiência de colonialidade e escravidão permanente. É o avô, o pai, o tio, o primo, o irmão, um bando de escrotos apoiando um governo de imbecis. Os imbecis somos todos, pois uma mesma rede de parentesco mergulhada na mais triste vileza. Não houve arte, cultura e ciência que dobrasse essa coisa brutalizadora que somos como experiência histórica de autodestruição e disseminação do nada. O preço a ser pago é alto e o prejuízo é compartilhado por todos, de modo compulsório. Estou apenas falando a partir do meu lugar de fala, que é o de uma insana selvageria. A selvageria do bacharel brasileiro. Mas vai que a gente se mata, como sempre o fizemos, pois de morte, de matar e de morrer, a gente é tudo doutor. O nosso êxito é o fracasso do espírito. Minha intencionalidade é o fracasso. Eliminar o sentido, parar de buscá-lo.
Monday, May 13, 2019
Dia das mães 2019
Mãe é apenas uma função. Uma função e tanto para quem dela usufrui como usuário, beneficiário. Mas minha mãe não é apenas a minha mãe. Quando me dei conta disso, passei a respeitá-la fora da função mãe. Ou seja, se tornou um enigma. O enigma de minha ex-mãe. Meu presente de dia das mães é me tornar um ex-filho para minha ex-mãe. Celebrar essa ex-humanidade que nos aproxima na distância inominável do desejo. Um desejo pós-familiar. É como então tento pensar na categoria impossível da mulher, uma categoria fadada a não poder existir. Ameaçada pelas diversas funções impostas pela ordem masculinista: filha, namorada, esposa, mãe, avó. Foi com Lydia que aprendi a questionar essas imposições que nos engessam a vida. Nunca vou esquecer o dia em que ela nos disse que se pudesse não teria sido mãe. Nos fez pensar. Obrigado, Lydia, minha amada ex-mãe. Ex-mãe, eu disse. Continua sendo minha mamãe.
Friday, May 10, 2019
Afasta esse cálice...
Cada um aplica seu desejozinho onde quer, né? Somos livres para voar. Uma coisa que aprendi na vida foi tentar não ser mero seguidor da agenda alheia. Sair de perto da agenda imposta pelo empreendedor acumulador. Ousar ter agenda própria. Somos todos neoliberais ou não?
Friday, May 03, 2019
2020 está chegando
Vendedor de caipirinha, de cachorro-quente, de cerveja em lata no isopor, de espetinho de gato, de podrão, de livros velhos, aulas particulares de catecismo, enfim, estou já me preparando para próximo ano me tornar empreendedor, dar um basta nessa balbúrdia de vida e empreender. Acho que uma igrejinha para congregar pode ajudar, não é? Afinal, é com fé que iremos superar as dificuldades. Sem fé, não somos nada. Empreendedores ungidos, venceremos! Desculpe-me tanta patifaria, mas é a depressão, sei mais nem mais o que fazer. Está ou não está propício para a queda na depressividade clínica?
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