Monday, December 21, 2020
Lembrança do futuro
Em 1998, viajei pela primeira vez ao exterior. Fui a trabalho passar três meses. Era estudante de mestrado. Conheci então parte da Europa no auge do neoliberalismo, uma crise sem precedentes de desmontagem do estado de bem-estar social. Fiquei hospedado na casa de dois amigos (um casal) por intermédio de outro amigo (um europeu que mora no Brasil). Foi então que conheci a pobreza europeia. Uma pobreza profunda. Meus anfitriões estavam ambos desempregados (dois doutores). Um vendia flores nas praças para turistas e dava aulas particulares de química, mesmo sendo parte de uma equipe prêmio Nobel de química (o orientador). Outro dirigia taxi de modo clandestino na madrugada, pegando o taxi de um outro que não queria trabalhar de madrugada. Um doutor em ciência política poliglota. Os dois passavam fome. Comiam repolho cozido o dia todo e bebiam uns vinhos ruins baratos de garrafão de plástico. Não havia calefação no quarto velho, caindo aos pedaços, numa favela na capital da Europa. Foram 3 meses dormindo sem calefação com menos 10, menos 5. Nos dias mais frios, meus anfitriões colocavam uma lamparina numa botijão de gás, como se faz nas áreas mais pobres do Nordeste do Brasil. Um perigo, podia gerar incêndio e matar todo mundo no cortiço. A comida que comiam era de baixa qualidade, carne vermelha era um item fora da imaginação. Quando iam receber o salário desemprego, ficavam numa fila e os concidadãos passavam xingando e alguns cuspiam neles, chamando-os de vagabundos e inúteis, que deveriam morrer. Sofriam ataques racistas por serem um casal interracial e interétnico. Ataques de vários lados. Nunca vou esquecer isso. Conheci o futuro em 1998. Foi muito marcante, eu não sabia que havia favela, pobreza e que as pessoas passavam fome na Europa.
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