Wednesday, July 26, 2017
O corpo abolido.
Do corpo abolido, restava apenas uma réstia do que lhe fora intensa fuga. Manter uma relação prática com o espaço vazio ao longo de toda uma vida sem virar cliente de igreja não é pouca coisa. É um balde cheio. Cheio da coisa. E o fundamento da coisa toda é um atitude não prática com essa relação prática que garante porra nenhuma. Mas garante a certeza de garantir quase nada sem pagar dízimo. O que há de pior sobre as perdas é que quase sempre se pode perder ainda mais. A consciência do nada não lhe trazia benefício, senão o de não cair no vazio. Uma vida sem credulidades exige certa coragem com um tanto de tontice, mas se pode dizer que a tolice é consciente de sua tolice, pelo menos.
Tuesday, July 25, 2017
Não há mais interesse...
De cada 10 crianças e adolescentes (até 14 anos) nordestinos, 6 estão em situação de pobreza. Somente no Estado do Ceará, há 1 milhão e 200 mil crianças e adolescentes na pobreza. Uma sociedade que abandona sua infância, relegando-a às zonas de abandono social, excluindo-a do acesso a uma vida boa e digna, é uma sociedade composta por sentimentos de crueldade dirigidos contra os mais fracos, ou seja, sentimentos impregnados de covardia e ódio de si. Uma sociedade violenta que não reconhece sua violência, apenas se pensa como vítima da violência. Um misto de sentimento de culpa com cinismo. Uma mistura de autodestruição com indiferença. É um crime tremendo que quase 30% das crianças cearenses vivam na miséria (extrema pobreza). E 60%, no geral, vivam na pobreza. O Estado é o crime. Maranhão e Ceará "lideram" o crime contra a infância no Brasil.
Friday, July 21, 2017
Clima de guerra em Fortaleza
O clima de guerra nas ruas de Fortaleza é permanente. Ir e voltar de casa para o trabalho virou uma aventura. Quase todo dia me deparo com homens armados perambulando por aí em plena luz do dia. Dia desses, vi uma cena de cinema. Uns trinta homens, vários deles com armas em punho, atravessando ao meio-dia de um dia da semana uma importante rodovia, a CE-040. Saiam de um comunidade local em fuga. Não sei se tinham invadido para atacar ou se eram de lá e estavam fugindo de algo. Pode-se morrer facilmente em Fortaleza, basta olhar para o lado errado ou ser confundindo com o que não se é. Muita morte. Muito tiroteio. Muito medo.
Friday, July 14, 2017
Compartimentalização moderna
Pessoas que tendem a querer transformar o ambiente de trabalho em um lugar de afetos, amigos, como se colegas fossem uma família são um pé no saco. Trabalho é trabalho. Colega é colega. Sou a favor das compartimentalizações modernas. Família num canto. Amigos em outro. Trabalho bem longe.
Sunday, June 25, 2017
Um exercício de colagem
"E ei-lo que partia agora com a cabeça grisalha, um rosto sombrio e triste de velho" (...) "Um ser que se habitua a tudo é, segundo creio, a melhor definição que se possa dar do homem" (...). "...não poderia conceber nunca o tormento espantoso de não poder ficar só" (...)."Dado indivíduo, que durante anos placidamente suportou os castigos mais atrozes, se enfurece de repente por uma ninharia, por uma bagatela, por um nada" (...)."...realiza uma tarefa que lhe é imposta, absolutamente improdutiva para si" (...)."...todo mundo ficava mais ou menos alerta, todo o mundo vivia num estado de expectativa perpétua, numa espécie de inquietação latente." (...)."Aqueles desgraçados tinham desejado tanto divertir-se, passar alegremente a grande festa e - meu Deus! - que peso, que esmagamento para quase todos! Cada um quisera, naquele grande dia, embalar-se com uma esperança; mas a esperança não se realizara" (...)."...ir para qualquer parte, conquanto não seja para a mesma intolerável cadeia de onde escapou" (...)."...na realidade todos se sentiam tão fatigados como eu, todos se sentiam enojados daquele companheirismo debaixo do açoite, daquela promiscuidade obrigatória; todos sentiam aversão uns pelos outros e não procuravam senão isolar-se." (Dostoiévski).
Estórias de rapazola
Minhas histórias de rapazola e rapaz na década de 1980 tornaram-se inacreditáveis. Nem eu mesmo acredito mais no que narro sobre isso. Nos inícios de 1990, quando o Nirvana estourou, não entendi foi nada. Juro! Para mim, as pessoas são pós-Nirvana e antes do Nirvana. Mudou tudo. Em 1989, com a que do muro de Berlim, fizemos debates homéricos, regados a cachaça, na Beira-mar, foi quando li o livro Perestroika, do Gorbachev, livro ruim da porra, perdi foi tempo. Por falar em Perestroika, havia um bar que virava boate a partir de tal hora, na Praia do Futuro, em Fortaleza, que se chamava Perestroika. A gente ia para lá depois da Biruta. Era pertinho. Dava para ir andando. Até hoje como um PF ali do lado, na entrada do Luxou, um PF na PF. As pessoas só querem falar sobre temas universais e abstratos, é? Pois, confesso, sou local, do localismo mais provinciano que há. Tenho mil pequenas histórias para contar a partir de conexões locais. Meio quilo delas na PI. Poxa, às vezes, voltando a pé da 13 de maio, da pracinha, depois da praça Portugal, havia o Soft Drinks. Mas lá era legal ir para ver o céu. Poxa, fui para o show do Titãs lá na Hipopótamos, uma boate que era na BR, debaixo de um viaduto, num lugar que hoje seria inimaginável de acreditar que houvesse uma boate. Tipo no meio do canteiro da BR. O show foi massa. Era o lançamento de cabeça dinossauro. O Raul Seixas estava lá no Pirata. No balcão, bebendo todas, garrafas e mais garrafas de uísque, e a galera da organização o levou carregado para fazer o show no Paulo Sarasate, chegando lá, ele tocou duas músicas e despencou, foi o maior quebra-quebra que presenciei, ainda moleque. Fui para o show dos Rolling Stones e aí, de repente, sem ninguém saber, sem nenhuma divulgação prévia, o Bob Dylan entra no palco e abre o show. Fiquei bom e fui comprar uma cerva. Lá na PI havia o bar From the Sea to the Moon. Era num casarão que tinha sido ocupado pelos hippies vindos de toda parte do mundo, eram várias línguas que lá falavam. O casarão caindo aos pedaços. Era o bicho. Havia o Maestra na Abolição. Era muito bom ir para o Maestra. Na época, diziam na cidade que era bar de entendido. Ainda falam assim? Era uma loucura. Como também Periferia, Navy, Duques e Barões e a casa da Leila na Maraponga. Tinha um casarão, ali perto da Dom Manuel, por trás, perto do Doroteias, que foi uma loucura a primeira vez que fui lá. Quando entrei, havia uma festa lotada de travestis, trans e indefiníveis em geral, morri de tesão e de medo ao mesmo tempo. Fiquei querendo ir pro colo da mamãe. Tinha só 16, não sabia ainda o que era boa festa. Os shows no América, no Casinha e no São José eram ótimos. A gente ia dormir lá na praça do Ferreira, depois. Quem nunca dormiu na praça do Ferreira, hein? Cara, a gente ia para Canoa no sábado à noite e voltava no domingo de manhã, brincando. A primeira vez que fui em Canoa foi em 1982, mas aí era mais demorado pra chegar.
25 de junho de 2017.
Desde que me entendo por gente, estudar aos sábados e domingos é a coisa mais normal do mundo. Foram muitos os eventos sociais deixados de lado para ficar o final de semana estudando. E todo mundo que conheço que se dedicou aos estudos fez a mesma coisa. Hoje é domingo, estou estudando desde 6 da manhã. Ontem, foi sábado e estudei de 7 às 17 horas. O que se ganha é o que se perde. Mas não troco um bom livro por um churrasco nem que a vaca tussa enquanto está sendo chamuscada. São escolhas? Não apenas. Mas também há escolha. Só não consigo entender como é que pessoas que vivem em estado permanente de eventos sociais conseguem ficar tão ranzinzas depois, quando vem o choro. Aí é um choro livre. Mas todo mundo é livre para sonhar e para chorar. Na real! Bom domingo ensolarado e muita diversão para todos e todas. Divirtam-se! Estou cá me divertindo bastante com letras e livros.
Saturday, June 24, 2017
Notícias de Caxambu
O indivíduo é um efeito numa rede de poder. E a percepção segunda a qual o eu do ator social ocupa o centro das relações sociais é uma experiência frequente e ilusória. Um centro de poder precisa ser conhecido a partir de suas fragilidades e existem circunstâncias privilegiadas para que se possa realizar essa observação. Quando indivíduos marcados por uma sólida reputação profissional se aposentam, isso gera um problema intergeracional de transmissão de posições de prestígio, como signos das heranças disponibilizadas. Os que passam a ocupar suas posições veem-se subitamente alçados ao nada, quando o sistema é aberto, de modo que expressam a crise de posição pela ansiedade e pelo medo, mantendo, porém, esquemas fortes de trabalho para evitar a queda no ostracismo individual e a lembrança coletiva negativa de que são avatares mal-postos. Ficam por vezes silenciosos numa grandeza pesada demais. Há também os barulhentos e espalhafatosos recém-chegados que tentam oportunizar de modo agressivo o aparente vácuo. Mas não há vácuo, há apenas intermezzo. Eles erram por isso. Esses recém-chegados tornam-se arrogantes e se associam aos que demonstram grandeza porque ocupam posições dominadas no campo do poder.
Mortificação e autoflagelação
Confio no cristão que mortifica o seu próprio desejo a tal ponto que exclui até mesmo prazeres lícitos de seu cardápio de sensações. O cristão de hoje, que vive na concupiscência, que não se aplica quinze chibatadas nas costas, como forma de autoflagelo, é um impostor. Um ser diabólico, a maioria cristã vive no pecado aberto e usando o julgamento divino para atribuir aos outros a fonte do pecado. Igrejas que mais parecem cabarés. Prefiro a santidade dos verdadeiros cabarés. Obviamente sem os cafetões que exploram o corpo dos outros comandando o mercado do sexo a partir de suas igrejas. Acordei hoje lembrando da minha primeira comunhão. Que saudade da Igreja!
O prazer
A busca pelo prazer é uma forma de dependência. É atrelar de modo ignominioso o prazer ao desejo. O prazer é algo bom em si mesmo, não há por que fundamentá-lo sobre uma falta, sobre uma carência. O prazer é um bem. Não se trata de agir para alcançar prazer, mas sim de agir puramente por prazer.
A modernidade pira!
Interessante como o velho Platão tornou-se um amante e apreciador dos prazeres estéticos, entre outros prazeres sensíveis e se negou a fazer uma condenação peremptória do prazer como algo a ser expurgado do campo do Bem. Ele passou a pensar em termos de misturas, de vida misturada. A modernidade pira diante disso!
Não aprendi a comemorar resultados
Cada família segue lá seus costumes. Não aprendi a comemorar resultados, apenas novas entradas, novos começos. Nunca fiz festa para um resultado, só para novos desafios. Cada doido com sua mania, né? Tem gente que gasta horrores de energia, investimento libidinal, dinheiro para comemorar aquilo que já alcançou. Pra mim é perda de tempo, dinheiro e desejo. Afirmar novas diferenças é mais importante do que buscar o reconhecimento pelo que já foi e não é mais, deixou de ser, portanto, o centro do turbilhão desejante. O desejo de prestígio é um tipo de desejo de Absoluto, ou sei lá, mas me parece bastante infrutífero.
Noite de Natal
O que é doméstico, confortável, amistoso, agradável, seguro, tranquilo, natural e familiar não me interessa, ao contrário, me apavora, sinto terror diante do que é íntimo, a intimidade do lar é o horror. Como estranho, busco os estranhos. Desde 13 anos de idade, passo a festa de Natal entre estranhos. Estranhos que vivemos no segredo, no oculto, que desperta o sentimento do amor, de incompreensão, de devassidão, abandono e errância! Avoé, espíritos livres! Um brinde às memórias de nossa desordem produtiva! Somos muitos, quando poucos. Sei o nome de todas as pessoas estranhas com quem ao longo de tantos anos compartilhei a comida, a bebida e o riso nas noites desgarradas do Natal.
Wednesday, June 21, 2017
Nem absolutismo, nem relativismo
Os que criticam o relativismo (e eu também o critico) tendem a esquecer que o contrário do relativismo é o absolutismo. Essa observação é de Latour e concordo inteiramente com ela. Vamos criticar o perspectivismo relativista da modernidade sem bradar fetiches de absoluto, como diria Bourdieu. Olha aí, usando Latour e Bourdieu num mesmo racicionício! Enfim, o perspectivismo radical é o melhor crítico do relativismo, e não a retomada de quaisquer absolutismos nos tempos atuais.
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Monday, June 12, 2017
Sunday, April 30, 2017
Sociologia no ensino médio
Enquanto querem retirar a sociologia do ensino médio, a grande mídia (Folha, O Globo, El País etc.) publica praticamente todos os dias textos de sociólogos sobre o que se passa mundo afora, solicitando dicas analíticas e interpretativas para os seus públicos leitores. Há algo de muito errado com esse tal de Escola Sem Partido e esses projetos que tiram a obrigatoriedade da sociologia no ensino médio, não? Até a grande mídia não descarta a sociologia como parte de seu mainstream. Estranho e em dois sentidos.
Saturday, April 29, 2017
Capacidade de pensar
A cada dia, sinto que minha capacidade de pensar está ameaçada. A recusa de adotar os clichês como uma economia do pensamento não garante que se esteja a salvaguardo de se cair no espaço vazio, no espaço incapacitante da loucura. Para isso não acontecer, é preciso manter a relação com a loucura como prioridade no processo de manutenção da capacidade agentiva de exercer o pensamento, pois pensar é atuar contra a ordem, é negar a força inercial da classificação, é atuar contra a crença e contra o desejo, pensar é arriscado demais. Pensar gera esvaziamento, gera um embrutecimento dos sentidos, talvez seja por isso que se torne cada vez mais importante pensar no regime do sensível. Mas tenho lá minhas dúvidas, pois os regimes do sensível estão de tal modo capturados pela atitude de não-pensamento que as coisas parecem esvanecer, refiro-me às coisas do pensamento, as coisas do real nos interpelam, mas apenas como coisas do pensamento podemos com elas pelejar. Onde estarei quando não mais conseguir pensar? Isto me amedronta, pois desconfio que já estou lá, que não é em aqui nenhum. Mas lá nos confins da experiência lúcida.
Thursday, April 20, 2017
Crime de quem?
Acham que podem apoiar um Estado fora da lei e não colher tempestades? Quem produz o crime é o Estado, principalmente, quando atua contra a Lei. Quando agentes da lei são estimulados a agir fora da lei, isso gera mais crime. Se três quartos da classe dirigente estão no crime, como o crime será controlado? Um Estado fora da lei não é capaz de controlar o que está fora da lei. O embrutecimento das condições já embrutecidas geram mais guerra.
Dos tempos antigos
Em tempos de paixão consumptiva, quando o consumo de sensações se esgota no próprio ato de desejar, morre com a expectativa, confesso que tenho uma alergia pessoal a esse mundo de eventos com palestras de gente sabida e estudiosa, falando para públicos que são sabidos mas não estudam quase nada, os sabidos de ouvir falar. Ir para palestras como um ato de fantasia social tem sido algo muito comum na universidade. Quatro anos sem ler um livro e 50 palestras na cachola. E de enganação em enganação, o gozo ilimitado como imperativo do supereu vai fazendo a festa, esse ato de crueldade. Menos palestras e fotografias em eventos, mais leitura na biblioteca em silêncio sem ninguém ver para aplaudir, por favor. Sou do tempo antigo. Do tempo arcaico. Do tempo em que a ética do desejo precisava ser pensada na relação com a ética do sacrifício. Pois, abrir mão do sacrifício é minar as possibilidades de um trabalho do desejo. O desejo como trabalho é fundamental para evitar ser refém do gozo ilimitado como imperativo do supereu. Os tempos arcaicos são os que atuam investindo em relações sociais. Que pensam a base das relações como sendo assumir obrigações recíprocas. Por que, afinal, deveríamos nos tornar todos ao mesmo tempo e agora aquilo que os tempos do curto prazo e do desejo à deriva sem relação com o espaço vazio, que é o que garante a sobrevivência contra a subalternidade, querem nos impor?
Os inocentes na luta pelo poder.
Tenho percebido ao longo do tempo que pessoas que lutam ferrenhamente para exercer o poder de mando costumam usar justificativas que mascaram sua sede imensa de poder, dizendo que estão se sacrificando em nome da coletividade, que estão buscando contribuir para o bem de todos, que estão naquele lugar de exercício do mando não por que ali desejam ao máximo estar, mas por terem sido destinadas a esse sacrifício em nome do todo. É recorrente esse tipo de figuração subjetiva. Lutam pelo poder e falam em nome da justiça. São compulsivamente atados ao poder pelo poder, mas falam a língua dos anjos, os inocentes.
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