Saturday, August 22, 2015

Estudando às cinco da matina

Cinco horas da matina. Acabei de acordar para estudar, um costume antigo. Lá pelas sete e trinta, volto a dormir um pouco, tipo meia hora, no máximo, o resultado é bom, não é Platão, mas é bom, dá para os gastos. E, enquanto isso, fico pensando nessa gente toda se movimentando para fazer a transformação social. Então, fico orgulhoso por demais! Pois, ninguém está ligado em dinheiro e sucesso e poder, apenas no amor.

Wednesday, August 19, 2015

O nascimento de anarca.

É preciso que um indivíduo esteja profundamente arruinado, destroçado, perturbado, aniquilado, mergulhado na balbúrdia de suas paixões e gozos mais contraditórios, prestes a partir-se, a se desintegrar, para que desenvolva um desejo de ordem, de uma ordem que se impõe de fora, um desejo de ordem sustentado pela dor de uma profunda culpa, de um terrível desejo inconsciente proibido de matar para amar e amar para matar. Deus é o suicídio adiado, o suicídio postergado, o suicídio suspenso, o suicídio na cruz, um desejo torturado, como de um perverso não domesticado, pior do que o mais perverso dos ladrões, esses agentes da ordem, que faz de Deus um falo, a fim de violar o útero da mãezinha. Anarca não obedece e não crê. Anarca é o cão, tem o cão nos couros e achando bom o cheiro de fumo e de cachaça.

Saturday, July 25, 2015

Estudar é transgredir

Estudar é uma forma de transgressão! Quando o supereu manda todo mundo gozar ilimitadamente no desejo de poder, no desejo de dinheiro e no desejo de sucesso, e no desejo de obter dinheiro, sucesso e poder de modo mágico, imediato, sem vocação, sem ethos sacrificial, apenas no gozo infinito sem mediações, sem esforço, sem trabalho, quando a maioria é incitada a tomar geral, estudar torna-se a maior das transgressões. Ficar nas férias, estudando, como forma de rebelião contra o sistema de dominação. Estudar é um prazer! Estudar é um trabalho! É um lugar entre o prazer e o trabalho. Faço apologia dos estudos sim. Se quiserem me prender, me processar, me xingar, vão em frente. Sei que é contra a lei do desejo da maioria, mas a lei do desejo da maioria não me interessa. Não confiem em ninguém que fale mal dos livros. Não confie em ninguém que diga que os livros são coisas da "elite", não são, os livros são nossas terras comuns, são signos delas.

A velha nova classe média

Gente, fiz uma descoberta sociológica. Uma descoberta de autoanálise. Faço parte da nova classe média da década de 1980 e meus pais fizeram parte da nova classe média de 1960. É muita nova classe média incompleta, só na fantasia, né?

Parabélum

Quem não leu ainda Parabélum, de Gilmar de Carvalho, não sabe o que está perdendo. A primeira vez que eu o li foi numa edição clandestina raríssima que circulava de mão em mão na universidade lá pelos idos de 1993.

Biologia humana

A plasticidade da biologia humana é surpreendente, uma capacidade que pode ser alargada, até certo ponto, a barreira é a morte.

Friday, June 12, 2015

Os sentidos do público, o senso do público.

Situação 1: O estudante envia email, solicitando um horário de atendimento com o professor, um estudante de outro curso da universidade que não é o curso onde o professor atua, o que é muito relevante para o professor, afinal, poder contribuir para a formação do educando é a missão. O professor então responde ao email, faz o agendamento, pactua dia, hora e lugar, prepara-se, levando as informações requeridas para oferecer ao aluno(a), comparece no dia e horário marcado, pontualmente, e o aluno(a) que solicitou o atendimento não aparece, o professor fica as duas horas que haviam sido reservadas para o atendimento, lendo, estudando, corrigindo provas, respondendo outros emails. Uma situação muito comum. Situação 2: Uma equipe de estudantes faz solicitação para o professor comparecer numa atividade acadêmica de formação, o professor aceita o convite, a equipe de pré-produção da atividade diz que irá entrar em contato para confirmar os detalhes da atividade, o professor fica aguardando o contato, não agenda nenhuma banca, nem um outro atendimento, deixa o dia e horário reservado, como lhe foi solicitado, a equipe de estudantes desaparece, não entra mais em contato com o professor, e a tarde inteira que o professor tinha reservado para colaborar com a atividade de formação é transformada em revisão de trabalhos, correção de provas, leituras de teses, dissertações e monografias. Situação 3: Um estudante solicita fazer uma entrevista com o professor para um produto acadêmico da instituição que faz parte do seu processo de formação, o professor faz o agendamento, combina lugar, horário e dia, e fica esperando uma hora e o estudante não comparece para realizar a atividade e nem entra mais em contato. O professor fica uma hora lendo, enquanto espera. Poderia relatar várias outras situações, e as situações relatadas acima são recorrentes, todavia, gostaria de chamar a atenção para uma questão. Os sentidos do público estão aí sendo confrontados. O público como terra de ninguém. Será que esquecem que a universidade pública é um investimento coletivo? Será que esquecem que a hora/atividade do professor varia entre 65 reais e 400 reais, a depender do nível de complexidade do atendimento? Será que as pessoas acham que o gratuito sai de graça? Que o gratuito não possui custos? Além de outras questões sobre as quais não irei me alongar.

Friday, May 15, 2015

O medo que dá

Existem os que sentem medo de não serem amados, os que sentem medo de amar, os que sentem medo de sofrer por causa do amor, os que sentem medo de perder a capacidade de amar, os que sentem medo da velhice sem amor, os que sentem medo de um amor sem velhice compartilhada, os que sentem medo da morte, os que sentem medo diante do vazio, os que sentem medo de modo habitual e atávico, os que sentem medo de ser livre, os que sentem medo das prisões, os que sentem medo da descoberta, os que sentem medo de que o amor seja um mero acaso, os que sentem medo da nudez, os que sentem medo da chuva, os que sentem medo da aridez, os que sentem medo do amanhã, do hoje e do ontem, os que sentem medo de tocar feridas próprias e alheias, os que sentem medo de agonizar estertorando numa cama de hospital, os que sentem medo de vacilar nas escolhas entre o certo e o errado, os que sentem medo de respirar micróbios, os que sentem medo de gozar, os que sentem medo de não parar jamais de gozar, os que sentem medo do desejo desejante dos outros, os que sentem medo de desejar o que odeiam, os que sentem medo de nunca mais sentir a presença de Deus, os que sentem medo do inferno, os que tem medo de ficar cego, os que tem medo de perder a razão, os que tem medo de dialogar com a loucura, os que tem medo de voar nos sentidos da paixão. O medo mata e salva a vida ao mesmo tempo sob aspectos diferentes. O medo me dá medo.

Thursday, May 14, 2015

Estratégia de poder

Se você deseja muito ocupar uma determinada posição, não vá direto ao ponto. O segredo é esse, não ir direto ao ponto é fundamental. Ademais, é importante demonstrar querer ocupar outra posição, que é disputada por outros, e essa interveniência vai deixar esses outros nervosos, de modo que, quando você se oferecer, como solução, para ocupar a posição que você realmente deseja, os indivíduos que ficaram com receio de mais um competidor disputando suas posições irão te apoiar para ocupar o lugar que você realmente quer. E, então, você atinge o objetivo, como se estivesse se voluntariando, se sacrificando em nome do coletivo. É a estratégia de poder mais certeira que há.

Wednesday, May 13, 2015

Alunos assustados

Recentemente, relatei para alguns de meus alunos como é a vida de filhos de classe média assalariada, que não são rentistas, ou seja, que não são de classe média alta, no que tange à trajetória escolar exigida para se tornarem "alguém na vida", "doutores". Alguns dos meus alunos ficaram assustadíssimos com o relato. Como os filhos da nação que têm a duras penas, sem nenhuma liquidez, "estudo, saúde, alimentação" (classe média assalariada) e nenhum patrimônio de apoio precisavam estudar 10 horas por dia durante longos anos, muitas décadas. Consegui involuntariamente assustar o pessoal. Nem todos, é claro.

Monday, May 11, 2015

Histeria

Somos movidos pela impotência, travando com a histeria em tempos supostamente pós-histéricos.

Brincar com fogo

O lugar de onde tento falar é o da fantasia. Não da fantasia como ilusão, mas da fantasia como imaginação criadora. É a desincorporação dos papeis que é a condição para qualquer mudança. Sair do papel. Desintegrar-se sem se fragmentar irremediavelmente. É brincar com fogo, é correr o risco, é se colocar em perigo, é levar a sério a ideia de que as imagens das palavras não são mera representação, não são apenas símbolos, são também modelações dos próprios eventos da vida. A fronteira entre acontecimento reais e imaginários é cortada pela força criadora de novos contextos que se libera no dizer novamente o que já foi dito.

Absurdo

E o sentimento do mais absurdo desamparo continua a fazer suas vítimas perpetradoras de uma crueldade que apenas se imputa aos outros. E o círculo infernal da adoração fatal do lugar absoluto continua a manter seus rebanhos em estado de inépcia para o pensamento. E os adoradores da morte continuam alimentando a paranoia do Estado e de seus grupos de perversos executivos.

Brutalidade de homens da elite

Eles não notam mais quando são estúpidos, grosseiros, brutais e intelectualmente embotados. São homens agressivos, com falas que parecem golpes desferidos no ar, e, também, são muito inseguros, no fundo, sentem-se humilhados, retraídos, sendo pisados, esmagados, ofendidos por outros homens agressivos que mandam neles. Desamparados, desesperados e agressores.

Rousseau apud Sennet

"As pessoas se encontram comigo cheias de amizade; mostram-me mil civilidades; prestam-me serviços de toda sorte. Mas é exatamente disso que me queixo. Como é que se fica imediatamente amigo de alguém que nunca se viu antes? O verdadeiro interesse humano, a sincera e nobre efusão de uma alma honesta - estes falam uma linguagem muito diferente das insinceras demonstrações de polidez (e as falsas aparências) que os costumes do grande mundo exigem" (Jean-Jacques Rousseau).

Fim à atividade meio!

Nada mais ridículo quando numa organização a atividade meio possui a pretensão de ser mais importante do que a atividade fim. Tipo: estou lendo uma tese para uma banca de doutorado, mas a atividade meio considera isso irrelevante, algo que pode ser interrompido sem problemas, pois o importante é ir lá dizer bom dia para o doutor e assinar os papeis para o doutor continuar sua carreira até Brasília. Vão pra merda!

O segredo da segunda-feira.

A cada 10 telefonemas, 9 partem da mais pura ansiedade ou da tentativa de transferir problemas e responsabilidades, jogar para o outro o que era de sua alçada. Não vale a pena atender telefonemas. E aquele pessoal que repete o email, reencaminha o mesmo email várias vezes, o importante é nunca mais responder. Pessoal com problemas emocionais. E aquele pessoal que usa redes sociais virtuais como Serviço de Atendimento ao Consumidor, também não responder, é claro. E quando alguém cobrar algo de você, tenha uma lista com tudo aquilo que a pessoa está devendo. A segunda-feira rende melhor. Quer manter as pessoas inconvenientes afastadas nos ambientes de trabalho, estudo e pesquisa? Basta exigir que trabalhem, estudem, pesquisem e assumam compromissos num padrão muito acima do que elas esperam, ou seja, do relax total que elas esperam, é só frustrar essa expectativa de relax total. Por exemplo, alguém pede para ser seu orientando, basta marcar um encontro para daqui a 15 dias para discutir uma obra importante, um livro de 250 páginas (que eu leio num dia), alguns artigos de peso, ou seja, que exigem dedicação, atenção e pensamento. De 10, 9 não aparecem no encontro e nem mais entram em contato, é uma alívio. Mostre que trabalha com quem trabalha em ritmo forte e você ficará na santa paz de Deus, ninguém chega perto. Segredo da segunda-feira.

A luta contra a intimidade

A comunicação entre os indivíduos quanto mais impessoal mais sincera é. A comunicação íntima entre os indivíduos é uma artificialidade hipócrita. Tempos em que a expressão da personalidade é odiosa e as convenções são desejáveis.

As perguntas da Anarca

É possível falar de vida interior para além do intestino grosso? É possível ser calvinista no candomblé ou candomblecista no calvinismo? É possível ser anarquista servidor do Estado? É possível ser crente pensador? É possível ser ganancioso solidário? É possível desejar dinheiro? É possível matar em nome do amor? É possível fazer da retórica intensiva da pessoalidade uma luta contra a intimidade na política? É possível praticar maldades, ser perverso, roubar e louvar a Deus? É possível amar todo mundo? É possível enlouquecer para ter razão? É possível viver sem desafetos? É possível acreditar na bondade humana? É possível organizar a confusão? É possível desejar a morte? É possível ouvir Chopin, comer pizza requentada e ler Hermann Broch domingo à noite? É possível desejar merda para amigos que não sejam de verdade? É possível parar de escrever e continuar simplesmente vivendo? É possível alegria sem amor? É possível fingir só de sacanagem?

Anarca acordou

Enquanto a gente fala de liberdade, as figuras sombrias, e são muitas, continuam falando de "meu marido", "minha sogra", "esta é minha futura esposa". Como alguém apresenta outrem como sendo "minha futura esposa"? Que merda é essa? É o fim da picada. Esse pessoal vive em que mundo, hein?! É decepcionante esse desejo de ordem, esse desejo de integração, essa histeria.