Friday, August 12, 2016

Piano noturno

Tinha um piano no Compasso, bar ao lado do Cais Bar, e dia de domingo à noite, lá pela meia-noite, alguns amigos que tocavam piano maravilhosamente bem iam saindo das mesas para dar uma canja, enquanto a gente discutia filosofia, literatura, artes e o sentido dos belos olhos das pessoas. Houve um tempo, sim, houve um tempo em que se tocava piano às segundas de madrugada de frente para o mar, e esse tempo é o tempo do meu corpo.

Da cerveja à pedra

A cerveja já não presta, é a maior mentira, e ainda a bicha está no preço de uma refeição, uma única unidade no preço de uma refeição, aí é de lascar, é por isso que a galera da pedra é vanguarda, a vanguarda do fim.

Tuesday, July 19, 2016

Rato de sebo

Como rato de sebos e livrarias, virtuais ou presenciais, frequentemente compro aquele livro de 250 reais por 30 reais ou aquele de 80 reais por 5 reais. Quando o desejo é ardente, não há crise que segure o bibliófilo.

Deep Purple 1976

E o Deep Purple tocando Georgia on My Mind, num show ao vivo, em 1976, como música incidental dentro de uma versão poderosa de Smoke on the Water! E eu escutando isso pela primeira vez. Pense no arrepio!

O desejo dos cultos

O que fazer quando membros altamente escolarizados, doutores e doutoras, das elites sociais, políticas, culturais e econômicas, passam a defender que a tarefa do Estado é exterminar, é fazer a vingança contra quem eles e elas consideram indesejáveis? O que fazer quando a noção de direito, de lei, de justiça, é abandonada pela classe dominante a favor de um Estado de morte? O que fazer?

O crime do estado

O problema não é o Crime agindo contra o Estado. Isso é um mito do Estado, esse mito segundo o qual o Crime é algo fora do Estado. Não existe crime fora do Estado, é o Estado que produz o crime. O problema maior é agentes do Estado tocando o Crime, tocando o terror contra o Direito, a Lei, a Justiça e a Democracia. Isso sim é o problema. É importante lembrar que não existe crime organizado fora do Estado, por definição, crime organizado só se faz com Estado.

Fortaleza, cidade proibida.

A gente mora num faroeste. Fortaleza mergulhada no caos. Sertões do Ceará viraram terra de ninguém. Mortes matadas por todos os lados. Assassinatos em cada esquina da cidade. Guerra de rua entre policiais e bandidos. Torturas, espancamentos. Prisões quebradas, arrombadas. Fugas em massa. Situação fora do controle dos nossos sonhos. Muitos sonhos de angústia a se espalhar. E o Crime do Ceará já anunciou que vai fazer mais prefeitos e vereadores nas próximas eleições. Os estabelecidos nesse ramo, com carreira criminal mais longa e consolidada, estão se batendo de frente num encarniçada luta pelo poder contra a voracidade dos recém-chegados. Muito sangue, muita morte, muita corrupção. Salve-se quem puder. O barco está afundando. Acredite no que quiser. Não há âncora, nem luz no fim do túnel. Crime do alto e crime de baixo em momento de ajuste violento. E a gente no meio disso tudo, vivendo em situações de altíssimo risco. Vir trabalhar e voltar do trabalho é risco de morte. Faixa de Gaza. Iraque. África do Sul. Colômbia. Venezuela. Seja bem-vindo a Fortaleza.

Monday, July 18, 2016

Temas de estudo

Os temas centrais da minha aurora de estudos são a loucura, o crime, a doença e a morte. Sinto que passarei mais do que uma vida inteira a pesquisar sobre tais temas. Talvez seja um sinal de pós-compulsão quanto a eles.

Algum orgulho de si

Um grande desafio é sentir orgulho de si sem alimentar formas de autoindulgência.

Vetar autores é o fim da picada

Acho uma coisa inacreditável, quando alguém simplesmente veta a leitura de um autor. Diz que o autor tal não deve ou merece ser lido. Tenho descoberto tanto autor massa ao desobedecer a esse tipo de veto.

Aprendendo a lidar

E essa busca compulsiva por figuras imaginárias protetoras? Muita atenção é pouca. O desejo de dependência pode ser muito danoso à liberdade já tão frágil e combalida do próprio desejo desejante no seu trabalho de conquista de autonomia relativa. E esses indivíduos que fazem demandas amorosas excessivas aos outros, mas não se dispõem a nada oferecer, que são exigentes com seus próprios direitos de ser amado e para lá de relapsos com a condição desejante dos outros, negando amor ostensivamente a esses de quem tudo cobram?

Monday, July 11, 2016

A espera

A respiração parecia jamais querer voltar, a tosse era seca, sem fumaça, mas seca. Os dedos estavam trêmulos. O mais sacal era esperar à beira da piscina que cheirava fortemente a cloro. Nada para beber.

Passagem

Catava latas e tinha o cuidado de separá-las entre as de ferro e as de alumínio, pois assim corria o tempo. E havia, no ponto de ônibus, uma kombi velha, vendiam podrão a dois reais e cerva em lata a um real.

Pavor em ser invisível

As pessoas estavam apavoradas. Era o medo de desaparecer. O infinito pavor de serem esquecidas.

Arredio

Tinha adquirido o costume de boicotar todo e qualquer tipo de festa, era um tipo solitário e arredio. O que o esperava era própolis e um copo de água natural para ser tomada aos goles. Não depois do própolis.As unhas mal-feitas, roídas, cortavam partes da cartilagem quando as mãos se movimentavam entre as orelhas.

Detalhe biográfico da tese

Quando era um menino de 10 anos, a roda de meninos imbecis se reunia no pátio da escola para questionar quem ia ser Ney Matogrosso, reproduzindo falas de homens adultos escutadas nas famílias, usando Ney como ponto de referência para decidir quem ia continuar sendo um tremendo babaca. Ney sempre foi muito poderoso! 9 anos depois quando descobri Secos e Molhados, isso mudou minha vida. Mudou minha relação com as experiências de gênero. Sem Ney Matogrosso, não teria havido essa mudança; que não foi lá essas coisas, mas foi. Fiquei um pouco menos babaca. I guess.

Monday, June 13, 2016

Precariado

Tenho um dúvida. As chances objetivas de pessoas jovens oriundas das classes dominadas de ocupar posições sociais que não sejam precárias, incertas e instáveis diminuíram? O problema é que metodologicamente não há como checar isso sem levar em consideração a relação entre as expectativas e as chances objetivas de realização dessas expectativas. A crise, para ser sentida como crise, funciona como crise da crença, crise de confiança, como rebaixamento de expectativas elevadas, inflacionadas, em relação a suas condições reais. Ocorre que as expectativas fazem parte dessas condições reais, então, não há como investigar as condições objetivas, desconsiderando os processos de objetivação da objetividade.

Habitar

Moro numa casa onde os muros são parciais. Há um trecho imenso sem muros e alguns muros antigos e outros mais recentes construídos na tentativa de minimizar a situação porosa de uma habitação sem muros. Mas na minha casa há portas e janelas. E elas não ficam sempre abertas. São abertas e fechadas várias vezes ao dia, num jogo infinito de uma casa quase sem muros. Subo no telhado, espio os arredores da casa. A casa vazia é um perigo. As armas da casa são meus olhos. E posso até furá-los nos espinhos que abundam na mata que rodeia a minha casa. Mas pela mata passo como flecha; nem que fure meus olhos. E assim vamos passando desta para uma melhor, ou não. Onde eu moro se chama sertão, meu corpo. Corpo aberto, corpo fechado. Sujeito marcado no limite de sua impossibilidade.

Monday, May 23, 2016

Onde habito?

Moro numa casa onde os muros são parciais. Há um trecho imenso sem muros e alguns muros antigos e outros mais recentes construídos na tentativa de minimizar a situação porosa de uma habitação sem muros. Mas na minha casa há portas e janelas. E elas não ficam sempre abertas. São abertas e fechadas várias vezes ao dia, num jogo infinito de uma casa quase sem muros. Subo no telhado, espio os arredores da casa. A casa vazia é um perigo. As armas da casa são meus olhos. E posso até furá-los nos espinhos que abundam na mata que rodeia a minha casa. Mas pela mata passo como flecha; nem que fure meus olhos. E assim vamos passando desta para uma melhor, ou não. Onde eu moro se chama sertão, meu corpo. Corpo aberto, corpo fechado. Sujeito marcado no limite de sua impossibilidade.

Thursday, March 10, 2016

1950: a década que mudou o Brasil.

Meus pais passaram 20 anos (1960-1980) para ascender a posições de classe média urbana assalariada sem patrimônio, nem ativos financeiros. 20 anos de investimento em capital educacional. Meu pai vindo de uma família de pequenos agricultores. Minha mãe de uma família proletária urbana. Minha avó paterna era dona de casa e agricultora sem estudos. Minha avó materna foi empregada doméstica, era dona de casa e agricultora sem estudos. Meu avô paterno era capataz, trabalhando para grandes proprietários rurais e no tempo vago na própria roça. Meu avô materno era técnico de contabilidade, proletário urbano. Confesso que considero falacioso demais dizer que se pode virar classe média num passe de mágica pelo acesso direto e simples a bens de consumo descartáveis. Essa é a maior mentira contada pelos governos da Nova República, principalmente, da Dilma, que insistiu demais no marketing da "nova classe média". Não é à toa que a depressão está avançando no país em larga escala. Sonhos alimentados e despedaçados por todo os lados, infelizmente. Os governos vendem fantasias de grupo e agora colhem tempestades. Essa é a base sociológica da ascensão do que chamam de "nova direita". Desta, estou bem longe, contrariando as estatísticas. Apenas uma hipótese de leitura que compartilho com vocês.