Friday, May 15, 2015

O medo que dá

Existem os que sentem medo de não serem amados, os que sentem medo de amar, os que sentem medo de sofrer por causa do amor, os que sentem medo de perder a capacidade de amar, os que sentem medo da velhice sem amor, os que sentem medo de um amor sem velhice compartilhada, os que sentem medo da morte, os que sentem medo diante do vazio, os que sentem medo de modo habitual e atávico, os que sentem medo de ser livre, os que sentem medo das prisões, os que sentem medo da descoberta, os que sentem medo de que o amor seja um mero acaso, os que sentem medo da nudez, os que sentem medo da chuva, os que sentem medo da aridez, os que sentem medo do amanhã, do hoje e do ontem, os que sentem medo de tocar feridas próprias e alheias, os que sentem medo de agonizar estertorando numa cama de hospital, os que sentem medo de vacilar nas escolhas entre o certo e o errado, os que sentem medo de respirar micróbios, os que sentem medo de gozar, os que sentem medo de não parar jamais de gozar, os que sentem medo do desejo desejante dos outros, os que sentem medo de desejar o que odeiam, os que sentem medo de nunca mais sentir a presença de Deus, os que sentem medo do inferno, os que tem medo de ficar cego, os que tem medo de perder a razão, os que tem medo de dialogar com a loucura, os que tem medo de voar nos sentidos da paixão. O medo mata e salva a vida ao mesmo tempo sob aspectos diferentes. O medo me dá medo.

Thursday, May 14, 2015

Estratégia de poder

Se você deseja muito ocupar uma determinada posição, não vá direto ao ponto. O segredo é esse, não ir direto ao ponto é fundamental. Ademais, é importante demonstrar querer ocupar outra posição, que é disputada por outros, e essa interveniência vai deixar esses outros nervosos, de modo que, quando você se oferecer, como solução, para ocupar a posição que você realmente deseja, os indivíduos que ficaram com receio de mais um competidor disputando suas posições irão te apoiar para ocupar o lugar que você realmente quer. E, então, você atinge o objetivo, como se estivesse se voluntariando, se sacrificando em nome do coletivo. É a estratégia de poder mais certeira que há.

Wednesday, May 13, 2015

Alunos assustados

Recentemente, relatei para alguns de meus alunos como é a vida de filhos de classe média assalariada, que não são rentistas, ou seja, que não são de classe média alta, no que tange à trajetória escolar exigida para se tornarem "alguém na vida", "doutores". Alguns dos meus alunos ficaram assustadíssimos com o relato. Como os filhos da nação que têm a duras penas, sem nenhuma liquidez, "estudo, saúde, alimentação" (classe média assalariada) e nenhum patrimônio de apoio precisavam estudar 10 horas por dia durante longos anos, muitas décadas. Consegui involuntariamente assustar o pessoal. Nem todos, é claro.

Monday, May 11, 2015

Histeria

Somos movidos pela impotência, travando com a histeria em tempos supostamente pós-histéricos.

Brincar com fogo

O lugar de onde tento falar é o da fantasia. Não da fantasia como ilusão, mas da fantasia como imaginação criadora. É a desincorporação dos papeis que é a condição para qualquer mudança. Sair do papel. Desintegrar-se sem se fragmentar irremediavelmente. É brincar com fogo, é correr o risco, é se colocar em perigo, é levar a sério a ideia de que as imagens das palavras não são mera representação, não são apenas símbolos, são também modelações dos próprios eventos da vida. A fronteira entre acontecimento reais e imaginários é cortada pela força criadora de novos contextos que se libera no dizer novamente o que já foi dito.

Absurdo

E o sentimento do mais absurdo desamparo continua a fazer suas vítimas perpetradoras de uma crueldade que apenas se imputa aos outros. E o círculo infernal da adoração fatal do lugar absoluto continua a manter seus rebanhos em estado de inépcia para o pensamento. E os adoradores da morte continuam alimentando a paranoia do Estado e de seus grupos de perversos executivos.

Brutalidade de homens da elite

Eles não notam mais quando são estúpidos, grosseiros, brutais e intelectualmente embotados. São homens agressivos, com falas que parecem golpes desferidos no ar, e, também, são muito inseguros, no fundo, sentem-se humilhados, retraídos, sendo pisados, esmagados, ofendidos por outros homens agressivos que mandam neles. Desamparados, desesperados e agressores.

Rousseau apud Sennet

"As pessoas se encontram comigo cheias de amizade; mostram-me mil civilidades; prestam-me serviços de toda sorte. Mas é exatamente disso que me queixo. Como é que se fica imediatamente amigo de alguém que nunca se viu antes? O verdadeiro interesse humano, a sincera e nobre efusão de uma alma honesta - estes falam uma linguagem muito diferente das insinceras demonstrações de polidez (e as falsas aparências) que os costumes do grande mundo exigem" (Jean-Jacques Rousseau).

Fim à atividade meio!

Nada mais ridículo quando numa organização a atividade meio possui a pretensão de ser mais importante do que a atividade fim. Tipo: estou lendo uma tese para uma banca de doutorado, mas a atividade meio considera isso irrelevante, algo que pode ser interrompido sem problemas, pois o importante é ir lá dizer bom dia para o doutor e assinar os papeis para o doutor continuar sua carreira até Brasília. Vão pra merda!

O segredo da segunda-feira.

A cada 10 telefonemas, 9 partem da mais pura ansiedade ou da tentativa de transferir problemas e responsabilidades, jogar para o outro o que era de sua alçada. Não vale a pena atender telefonemas. E aquele pessoal que repete o email, reencaminha o mesmo email várias vezes, o importante é nunca mais responder. Pessoal com problemas emocionais. E aquele pessoal que usa redes sociais virtuais como Serviço de Atendimento ao Consumidor, também não responder, é claro. E quando alguém cobrar algo de você, tenha uma lista com tudo aquilo que a pessoa está devendo. A segunda-feira rende melhor. Quer manter as pessoas inconvenientes afastadas nos ambientes de trabalho, estudo e pesquisa? Basta exigir que trabalhem, estudem, pesquisem e assumam compromissos num padrão muito acima do que elas esperam, ou seja, do relax total que elas esperam, é só frustrar essa expectativa de relax total. Por exemplo, alguém pede para ser seu orientando, basta marcar um encontro para daqui a 15 dias para discutir uma obra importante, um livro de 250 páginas (que eu leio num dia), alguns artigos de peso, ou seja, que exigem dedicação, atenção e pensamento. De 10, 9 não aparecem no encontro e nem mais entram em contato, é uma alívio. Mostre que trabalha com quem trabalha em ritmo forte e você ficará na santa paz de Deus, ninguém chega perto. Segredo da segunda-feira.

A luta contra a intimidade

A comunicação entre os indivíduos quanto mais impessoal mais sincera é. A comunicação íntima entre os indivíduos é uma artificialidade hipócrita. Tempos em que a expressão da personalidade é odiosa e as convenções são desejáveis.

As perguntas da Anarca

É possível falar de vida interior para além do intestino grosso? É possível ser calvinista no candomblé ou candomblecista no calvinismo? É possível ser anarquista servidor do Estado? É possível ser crente pensador? É possível ser ganancioso solidário? É possível desejar dinheiro? É possível matar em nome do amor? É possível fazer da retórica intensiva da pessoalidade uma luta contra a intimidade na política? É possível praticar maldades, ser perverso, roubar e louvar a Deus? É possível amar todo mundo? É possível enlouquecer para ter razão? É possível viver sem desafetos? É possível acreditar na bondade humana? É possível organizar a confusão? É possível desejar a morte? É possível ouvir Chopin, comer pizza requentada e ler Hermann Broch domingo à noite? É possível desejar merda para amigos que não sejam de verdade? É possível parar de escrever e continuar simplesmente vivendo? É possível alegria sem amor? É possível fingir só de sacanagem?

Anarca acordou

Enquanto a gente fala de liberdade, as figuras sombrias, e são muitas, continuam falando de "meu marido", "minha sogra", "esta é minha futura esposa". Como alguém apresenta outrem como sendo "minha futura esposa"? Que merda é essa? É o fim da picada. Esse pessoal vive em que mundo, hein?! É decepcionante esse desejo de ordem, esse desejo de integração, essa histeria.

Brutalidade de elite

Um intelectual de classe média alta me confessou em tom de decepção que os membros individuais dos círculos sociais das camadas médias altas e altas com quem ele possui convívio sociocultural estão cada vez mais insensíveis e expressando sentimentos e pensamento de brutalidade contra os outros, principalmente, contra os pobres, os fracassados e os perdedores. Ele me contou que qualquer pensamento que ele expresse com valores de justiça social, democracia e igualdade, na versão mais moderada que existe, está sendo tratado como algo a ser completamente descartado do horizonte desses indivíduos que são empresários, médicos, advogados, executivos, dentre outros, com quem ele convive. Ele me disse também que foi hostilizado por jovens da burguesia por ter falado que era necessário pensar num país mais justo. Os jovens escarneceram dele. Chamaram-no de nomes desqualificadores. O intelectual está pessimista, pois as elites estão atualmente unidas na incivilidade, na mentalidade autoritária e no individualismo mais rasteiro que há, individualismo possessivo do mais dinheiro e do "eu controlo a minha família". Pequenos tiranos endinheirados, falando línguas estrangeiras, ávidos por poder, dinheiro e sucesso e que sentem ódio de fracassados, ou seja, da maioria de nós. Muita atenção é pouca. Estamos nos confrontando com ralés, hordas, bandos que viraram "elites".

O racismo é lá na África do Sul?

E os brancos egóticos, esparramados em suas vidas miseráveis, cercados de luxo, de fartura e nenhum sentido, apenas o tédio ou a adoração da morte, continuam se autoelogiando, expressando o lixo de suas personalidades tacanhas, truncadas, imbecilizantes, e os brancos de shopping center, e os brancos de alta escolaridade, e os brancos lívidos de tanta tristeza e falta e falta e falta, comemoram suas pequenas felicidades totalmente indiferentes à miséria que se abate contra a maioria, beneficiam-se da riqueza privada concentrada, comem nas mesas dos senhores, as migalhas, principalmente, se mantêm subservientes e fazendo da pornografia de vidas vazias a sua principal forma de expressão. Brancos senhoriais e racistas, travestidos de pessoas de bem, de pessoas legais. Não há pessoas de bem e legais em meio a um sistema de opressão tão brutal, não há.

Dia das mães

As mulheres negras, moradoras de favelas, com baixíssima escolaridade ou nenhuma, diaristas, catadoras de material reciclável e mães solteiras, cujos filhos são regularmente massacrados, engolidos pelo sistema de crueldades, continuam há séculos na mesma posição de subordinação, humilhação e exclusão. E enquanto for assim, Anarca considera uma imoralidade qualquer comemoração, qualquer manifestação pública de carinho e de amor no dia das mães. Só haverá comemoração, quando nenhuma mãe a menos. Pessoas brancas com mães brancas que vivem na fartura deveriam fazer jejum de palavra, imagem e comida no dia de hoje. Caso contrário, afirmam-se como a classe senhorial e racista que de modo brutal faz o sistema da opressão se perpetuar. E ainda depois acusam os brancos da África do Sul de serem os partidários do regime do apartheid. Dia das mães de racistas coniventes com a dominação brutal, estou fora.

Sofredor

Todo ser é sofredor. O sofrimento é o princípio universal do meramente existente. Não há sujeito sem sofrimento. A dor é a parteira da vida. As tentativas são muitas e escoam juntas para o vale das lágrimas onde a fé se torna inócua e dispensável, uma pálida figura sem substância no rumo ao nada.

Peremptório

A felicidade é pornográfica. O tédio é democrático. O desejo é ambivalente. O lar é perigoso, a rua é acolhedora. A morte é recente, a vida é futura. O inferno é renitente, o céu improvável. A armadura é móvel, o caráter corrompido. A fantasia é frágil, a realidade é cortante. O amor é finitude, o ódio é desejo. A paixão é senhora, a razão é serva. O fim do lazer é a decadência.

O circo humano

A companhia de outros seres é um fardo, a obrigação de reciprocar é um peso, mas, no mais profundo desamparo, o rebanho se aconchega; um focinho no rabo do outro e vice-versa: o circo humano.

Pessoas felizes

Pessoas felizes não são pessoas, são aparatos. Pessoas felizes já estão mortas. Apenas o tetricamente absurdo é capaz de reativar a criatividade dos humanos. Quando não há estados de alma, apenas fluxos indefinidos.